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A água é um dos principais aspectos a considerar num projecto agro-ecológico e, claro, num projecto de permacultura. Isto é o que vai permitir que haja a magia chamada vida. Estamos num clima de grandes contrastes a nível de precipitação. Chove principalmente no outono e primavera e raramente chove no verão. Existe também um grande contraste entre precipitação e evaporação, com uma precipitação média anual 600 a 800 mm em contraste com uns 1200 a 1300 mm de evaporação média anual segundo a Agência Espanhola de Meteorologia, o que permite adivinhar a tendência para clima seco. Assim, em Terra Purna a água é o desafio central em todas as fases, desde a captação à distribuição, passando pelo armazenamento.

 

A estratégia que se segue neste projecto baseia-se em fazer circular a água pela maior extensão possível de terreno e infiltrar a maior quantidade de água possível no solo pois é este o mais benéfico e menos dispendioso método para armazenar água. A nível de armazenamento, além da infiltração, armazenamos a água também em lagos e em depósitos. Além dos três riachos e da chuva, a captação faz-se numa nascente. No futuro, a recuperação de água da chuva nos telhados e o recurso à condensação serão também considerados.

 

A infiltração de água tem como objectivo subir cada vez mais o nível freático e assim ter a água do subsolo mais acessível à vida da superfície. Para isto projectámos um swale que atravessa o bosque comestível, i.e, uma vala numa curva de nível, com cerca de 3 metros de largura e 1 metro de profundidade. Este swale passa num keypoint do terreno, i.e., num ponto de confluência de água de escorrimento, mas pode ser também alimentado por um dos ribeiros que cruzam a quinta. Quando está cheio, a drenagem faz-se por um conjunto de canais que fazem com que a água circule o mais tempo possível pelo terreno voltando depois ao ribeiro. Está prevista em breve a construção de um segundo swale abaixo do referido anteriormente. Será interessante ver com o tempo se o poço do vizinho quase seco alimentado pela veia de água subterranea que passa nessa zona vá tendo mais água de ano para ano no pico do verão. Acreditamos que sim e essa será uma bonita forma de comprovar o benefício destas técnicas. 

 

No design de permacultura incluímos vários lagos, nenhum deles impermeabilizado, projecto ao qual chamamos espelhos de água. Não tendo a quinta área suficiente para um lago de maiores dimensões, a opção de design foi efectuar vários pequenos lagos alguns deles conectados entre si aumentando assim a dinâmica de circulação da água. Desta forma, obtemos uma área total de superfície aquática mais próxima da de um lago de maiores dimensões. Pensamos que um dos lagos maiores por se situar numa zona com terra profunda algo arenosa, se não for impermeabilizado, perderá sempre a água no verão, o que resolvê-mos aceitar. O outro um pouco maior, como tem pedra no fundo esperamos que com o tempo se auto-impermeabilize, restando o desafio de diminuir a evaporação com sombreamentos de modo a que nunca se seque, tal como talvez tentar aprofundá-lo um pouco mais, ficando nos 2,5 a 3 m de profundidade, facto que irá contribuir para diminuir também a evaporação. O esquema de lagos conectados é formado primeiro por um pequeno lago que absolve a infiltração de água na parte superior na quinta transmitindo de forma directa essa água para um lago maior o qual quando cheio passa a água por um pequeno canal a um terceiro lago em forma de represa. Este terceiro lago a que chamamos presa (do espanhol) possui um escoamento de água de overflow por um tubo de 2'' para um quarto lago. Este quarto lago que é alimentado por um pequeno riacho que apenas corre quando chove em abundancia vẽ-se assim alimentado pelas retenções de água anteriores, mantendo por mais tempo o seu nível. De referir que este quarto lago, a que chamamos lago da horta carvalho, possibilita uma infiltração de água por baixo desta horta, solução que resolve um alagamento que existia nessa zona quando chovia muito. O excesso de água deste ultimo lago volta para o rio completando o circuito.

 

Relativamente ao circuito de água potável que tem inicio na nascente (água de consumo directo e para rega), a água é bombeada para um depósito em altura apenas com uma bomba de pressão SURflo de 80 watts a 24 volts formando um grupo de pressão com um balão de pressão de 24l (este balão, idêntico ao dos vasos de expansão dos sistemas AQS de circulação forçada, não é mais que um depósito com uma membrana de EPDM no seu interior). A alimentação da bomba está projectada para funcionar através de um sistema fotovoltaico standalone, trabalhando assim apenas de dia quando há luz solar e enquanto o armazenamento não estiver cheio, controlo este que é assegurado pelo pressostáto da própria bomba e uma simples bóia no inlet do armazenamento. A utilização do balão permite aliviar a bomba relativamente aos pequenos e esporáticos consumos quando o depósito está cheio, pois existe neste caso sempre uma reserva de 24l que são disponibilizados sem activar a bomba. A opção de utilização de uma bomba de pressão com esta potência, deve-se ao facto de ser uma solução muito mais barata (cerca de 120€, bomba + balão pressurizado) e igualmente eficiente, pois permite "trocar pressão por altura", i.e., a cada 10 m de altura corresponde 1 kg de pressão, portanto disponibilizando esta bomba aproximadamente 2.4 kg de pressão, perdemos pressão em detrimento da sua elevação. Neste caso, a água que chega à entrada da bomba já com alguma velocidade é bombeada para um depósito situado a 10 metros de altura relativamente ao plano das casas e da horta familiar, permitindo depois uma distribuição gravítica da água. A estratégia aqui é colocar toda a água em altitude para permitir uma relação assíncrona entre consumo e captação de água, tendo como consequência aliviar a pressão de exploração da nascente dando assim mais tempo para que esta recupere.  Como depósito, temos como objectivo a construção de um depósito de cerca de 10 000 litros em ferro-cimento com um cilindro de EPDM no seu interior, garantindo a qualidade da água e eventuais fugas por deficiente construção ou degradação do depósito. De momento, valemos-nos de duas barricas de 240 litros para fechar o circuito e estabelecer o ponto de armazenamento provisoriamente.

 

Todo este intricado esquema de lagos que escoam de uns para outros compensando-se, de infiltrações, o sistema de água canalizada com captação, elevação, armazenamento e distribuição,  teve já bastantes "encarnações". Na verdade tem sido um grande laboratório no qual temos aprendido bastante. 


Água que corre

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