Vacas pirómanas?

10.10.2017 09:11

Serão também as vacas responsáveis pelos incêndios? Como pode ser? Bem, as pobres vacas não serão incendiárias com certeza. Seria melhor colocar a questão de outra forma, bastante semelhante porém totalmente diferente. Será a exploração bovina, e isto claro em extensivo, também responsável pelos incêndios?

 

Pois sim mas ninguém quer falar disto. Certamente que não directamente e há até quem diga que os grandes herbívoros "limpam" os campos e assim reduzem a propagação dos incêndios. Então que argumento é este?

 

Vejamos. Num monocultivo de pinheiros ou eucaliptos, a que por vezes sem se entender bem porquê se chama floresta, um incêndio terá combustível suficiente para progredir até limpar completamente toda a área plantada. Num bosque autóctone como o nosso, constituído essencialmente por espécies da família dos quercus (carvalhos) como as várias espécies de carvalho propriamente ditos, o sobreiro, a azinheira, ou também os castanheiros, etc., o fogo tem imensa dificuldade em progredir. Estas árvores são autênticos corta-fogos. O que acontece é que a presença desequilibrada de grandes herbívoros nestes espaços impede tanto a sucessão natural ou ecológica como a regeneração natural. A não regeneração natural é um facto muito fácil de observar num local com estes animais. Basta observar para verificar que nestes locais não existem árvores com diferentes idades, que não existem árvores jovens, pois são pisadas, partidas ou comidas na sua infância. A sucessão natural, por seu lado, já é mais difícil de observar pois é necessário estarmos munidos de uma escalada de tempo grande comparando normalmente com a nossa vida. É este o facto que faz com que este processo seja mal compreendido e naturalmente não correlacionado com a dinâmica dos incêndios em locais autóctones e as vacas que neles pastam. 

 

Então como funciona a sucessão natural? Se deixarmos a natureza fazer o seu trabalho, esta irá criar um bosque. É o seu clímax, a tua meta. Este processo irá ser iniciado com espécies pioneiras que preparam o solo, enriquecendo-o e equilibrando-o relativamente a um elemento em falta como acontece depois de um incêndio. Estas espécies darão origem a outras mais complexas na criação do ecossistema, num processo lento que progride desde as espécies pioneiras iniciais até às espécie do bosque maduro final, sendo que as espécies ditas pioneiras têm ciclos de vida mais curtos. Neste estágio final, o bosque não terá o aspecto que normalmente conhecemos sendo pelo contrário um espaço com bastante humidade, "limpo" de infestantes ou espécies pirómanas. As espécies pioneiras, pelo contrário, são pela sua natureza bastante susceptíveis de arder, como por exemplo a nossa giesta, por outras palavras, são como gasolina num verão  quente e seco como os que temos na nossa zona climática.

 

Se entendermos este facto e não estivermos cegos ou formos hipócritas como são muitos dos políticos e produtores dessas unidades de processamento de carne e leite a que chamamos vacas, correlacionamos facilmente que numa zona autóctone a presença excessiva de vacas terá como consequência que o bosque nunca chegue a ficar maduro, não saindo da fase pioneira onde as giestas, as estevas, as silvas entre outras espécies proliferam e o fogo também.

 

Acredito que muito mais gente do que imaginamos conhece este facto mas ninguém quer falar dele. Mais uma vez cabe a nós sermos os políticos de serviço pois é com as nossas opções de consumo, neste caso a carne, que podemos construir uma outra realidade. Acredita, o frigorífico pode ser um grande regulador da paisagem.  

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